Agosto/2026 – Psicoterapia / Personalidade


Personalidade Secundária

A formação da Personalidade Secundária   e

 como a psicoterapia pode nos ajudar a recuperar a Personalidade Primária

e sua relação com o sistema-consumismo

Este informe aborda o processo de formação da Personalidade Secundária.


Gerda Boyesen foi quem desenvolveu os conceitos de Personalidade Primária e Personalidade Secundária. Para ela, a Personalidade Secundária se constitui em consequência de defesas que construímos para nos proteger de ameaças externas e daquelas que foram internalizadas na infância.

 

A psicoterapia corporal colabora com o paciente na (re)construção da própria singularidade – sua Personalidade Primária – estimulando o autoconhecimento e a expressão da potência, criatividade e singularidade que é característica singular de cada um de nós.


Boa Leitura


A Personalidade Secundária

A Personalidade Secundária se constrói como uma maneira de não confrontar as figuras de autoridade, nos protegendo, evitando punições e/ou negando as ameaças que tememos.


É no início da vida, a infância, que iniciamos o processo de lidar com as ameaças. Nesta etapa do desenvolvimento o  papel dos cuidadores – não só das mães e pais - tem importância fundamental. Deve-se proteger a criança dos perigos do ambiente, mas sem reprimir autoritariamente a sua iniciativa e o seu desejo. Nesta fase a criança quer explorar o mundo à sua volta, faz isso experimentando ao seu modo, reagindo ao impulso corporal que busca o que parece ser prazeroso e divertido. Assim como os prazeres desejados pelos adultos, os prazeres que as crianças buscam podem esconder perigos e suas consequências danosas, mas os cuidadores não devem reprimir a libido infantil.


Quanto ao ambiente em que estamos inseridos, há que se considerar que o Neoliberalismo e o Consumismo operam no sentido de nos distanciar (ou nos fazer romper) com os impulsos naturais básicos do prazer corporal. Os estímulos para o consumo, apresentados por todos os meios de comunicação de massa e de nicho geram uma noção de obediência e submissão, que têm como consequência a distorção da libido natural. Agindo assim, o sistema influencia a escolha do objeto amado e desejado. Com isso, de forma um tanto ingênua, a pessoa deixa de fazer suas escolhas a partir da sua natureza corporal, da sua pulsão de vida.


A construção da Personalidade Secundária é um processo que vai nos distanciando de uma vida saudável. Este processo é também uma das causas relevantes de transtornos psicológicos frequentes, como os de ansiedade, depressivos e de falta de atenção e hiperatividade.


A psicoterapia visa levar a pessoa ao resgate de uma vida mais expressiva e ao reconhecimento de si mesmo. Proporciona também o autoconhecimento e estimula o desfrutar pleno da potência, da criatividade e da singularidade. Desta forma, a Personalidade Primária passa a comandar as ações do paciente.


A construção da personalidade secundária

“Gerda Boyesen preconiza que toda emoção, todo choque e toda frustração tem um impacto direto no indivíduo, tanto físico quanto psicológico. A tensão acumulada, acaba desenvolvendo o sintoma neurótico.


Segundo a autora, todo o organismo tem o poder de expressar, resolver e digerir até mesmo os mais violentos choques emocionais, contanto que a pessoa tenha um “núcleo vivo” - que denominou de personalidade primária -, um núcleo de paz e segurança interna. Porém, os choques e o estresse constante podem levar o indivíduo a perder ou diminuir o poder de autorregulação.


A terapia biodinâmica está direcionada para a restauração dessa capacidade de autorregulação. Boyesen preconiza que muito frequentemente esse núcleo vivo, ou personalidade primária, fica enterrado sob uma “personalidade secundária”, que se forma com o desenvolvimento do indivíduo, o qual corresponde ao que Reich designou como couraça muscular, dentro da Análise do Caráter. O indivíduo passa a responder não só às tensões externas assim como às ameaças vindas do interior.

...

De acordo com Boyesen, Reich trouxe a corporalidade para a teoria freudiana, estudando a bioenergia que corre no sangue e no corpo todo, a pulsão que se expressa através da expansão-contração, acumulação-liberação, tensão-repouso, carga-descarga, inspiração-expiração, bases da teoria do orgasmo.

...

Para o trabalho bioenergético, a realidade pode [e deveria ser] ser prazerosa. A união entre o “isto” e o “eu” é natural. Ela acontece para integrar, no indivíduo as experiências e o contato consigo e suas vivências.

...

Ela conclui, alertando para a forma de tratamento dado às crianças desde sua concepção, que a educação deve atender às necessidades básicas dessa criança, para o seu desenvolvimento harmonioso. “


Rosângela da Rosa


A maior parte das pessoas manifesta aspectos tanto da Personalidade Primária quanto da Personalidade Secundária. A prevalência de aspectos da Personalidade Secundária, em maior ou menor grau, determina o grau de alienação de si mesmo, sua maior ou menor capacidade de ter uma existência singular, de acordo com suas próprias necessidades.


A cronificação da Personalidade Secundária traz uma vida de serviço ao que é imposto pelo sistema, uma vida de repetição do que é suportável e não de uma vida prazerosa.


Enfim, a Personalidade Secundária  pode se apresentar acompanhada de sintomas bastante desagradáveis.



Bioenergia e ciclo emocional

A bioenergia, ou energia vital, influencia fisiologicamente o organismo humano, sendo seu fluxo passível de ser bloqueado por meio de tensões que, em algum momento, não foram adequadamente liberadas. A estase de bioenergia (ou encapsulamento de energia) é gerada pelas emoções – carga - experimentadas ao longo da vida (em especial na infância), que não foram expressas – descarga - de forma satisfatória.


Quando a reação a um evento é interrompida (para evitar conflito, por medo, ou por regras morais internalizadas), ocorre um bloqueio do fluxo da bioenergia, que se acumulará como resíduo, gerando tensão muscular, inibição da respiração e deformação da postura corporal. Quando estes bloqueios comprometem o funcionamento do corpo, podem se tornar crônicos e, muitas vezes, imperceptíveis à consciência: agimos de modo não natural e nem nos damos conta disso.


Ao impedir a expressão natural das emoções podemos gerar interações conflituosas entre psiquê e soma, entre alma e corpo.


Uma pessoa sadia, com fluxo energético pleno, tem a capacidade de se autorregular, completando os ciclos emocionais – carga e descarga - e restabelecendo um estado saudável de tranquilidade após situações de estresse. A este processo chamamos autorregulação.



O Corpo a serviço do Mercado

A supervalorização da aparência pode ser percebida nas frequentes e excessivas postagens que expõem a artificialidade de um determinado padrão de beleza e de corpo a ser admirado. Esta representação que se repete nas redes sociais é o Corpo Performático.


Corpos Performáticos são corpos sem emoção legítima. São corpos que mostram emoções não naturais e se reduzem à imagem pela imagem. São personagens e não pessoas de fato. Muitas vezes são corpos moldados por efeitos visuais proporcionados pela tecnologia. Divulgados permanentemente pelos diferentes meios de comunicação, são, ao mesmo tempo, ocos e ancoradouros de uma diversidade de sentidos. Neles estão impressas crenças e valores, ideologias e possibilidades, de forma que as ideias passam a ser materializadas na estética corporal. A imagem se torna um discurso ideológico. Uma ressalva que devo registrar: o artista expressa o que sente em sua obra, porém, para mostrar sua visão de mundo muitas vezes pode depender do sistema.


“A mídia produz os sujeitos de que o mercado necessita, prontos para responder a seus apelos de consumo sem nenhum conflito...”


Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl


A tecnologia muitas vezes é vista como possibilidade de superação dos limites físicos do corpo. Com a disseminação do seu uso pela internet, pode parecer que estamos desbravando novos horizontes. Os limites do corpo, do tempo e do espaço, parecem ampliados no mundo digital-virtual.


Por intermédio das diversas “telinhas” podemos acessar informações registradas nas bases de dados de qualquer computador em qualquer tempo e em qualquer lugar, desde que ele esteja conectado à internet. Esta condição nos leva à ideia de transcendência da condição humana por meio da tecnociência.


Na década de 1990, falava-se em “computer telephone”, a integração do computador ao telefone. Pensava-se em pontos de presença, locais onde as pessoas teriam a possibilidade de utilizar tal tecnologia. Passados aproximadamente 35 anos, temos smart phones, os computer telephones atuais, que o usuário leva consigo diuturnamente: no bolso, na bolsa, no pulso, no óculos, no laptop ou em qualquer dispositivo IOT (internet das coisas). Neste momento da nossa história, uma criança também tem seu smart phone ou tablet para brincar com a "telinha" e assim pode ver qualquer coisa acessível via internet.


O sistema-consumismo utiliza a tecnociência para moldar a personalidade das pessoas, com o objetivo de torná-las consumidores e para sejam suas devotas:


“Sem mim [sistema-consumismo] nada podeis fazer”.


Num ambiente de trabalho cada vez mais automatizado, competir com um robô por uma vaga de emprego e ser o escolhido, parece um privilégio. Disputar com um robô que não tem emoções, não fica doente, não se distrai e não é sindicalizado, gera o abandono do corpo sensível, o instrumento da nossa alma-psiquê. O que falar então da saúde emocional? Não é por acaso que o número de pessoas com transtornos psicológicos e psiquiátricos vem crescendo assustadoramente.


Para o sistema interessa um corpo com uma subjetividade cuidadosamente construída pelo marketing digital.

"Trabalhe enquanto os outros dormem",

"treine enquanto eles se divertem".


Para o sistema, o indivíduo deve criar uma identidade baseada no trabalho e se identificar com os valores da empresa. Assim, valores estrategicamente pensados para gerar o maior lucro financeiro possível para os acionistas devem servir de orientação de vida aos empregados, perversamente chamados de colaboradores. Esta manipulação  menospreza a condição humana essencial, fazendo com que a sua singularidade e o propósito de vida do colaborador fique em segundo plano. E esta seria a garantia exigida para manter sua remuneração e emprego.


E assim acontece o distanciamento da pessoa em relação à sua Personalidade Primária, sua forma genuína de estar no mundo.




O resgate da personalidade primária 

A bioenergia trabalha em favor do bem estar – saúde –, buscando sempre completar o ciclo carga-descarga das emoções.


A Personalidade Secundária promove o bloqueio da bioenergia e da consequente perda da potência que deve criar uma vida saudável, criativa e prazerosa.


A psicoterapia corporal promove a expressão da Personalidade Primária por meio de diversas técnicas, incluindo exercícios corporais, massagens, toques, associação livre de ideias e outras formas de elaboração simbólica.


"O maior arrependimento que um ser humano pode ter é o de não ser aquilo que ele veio para ser nessa existência" 


 Ana Cláudia Arantes

geriatra, especialista em cuidados paliativos



E nas sessões de psicoterapia ...

Procuramos conscientizar os pacientes sobre o poder de influência que o sistema-consumismo exerce sobre nós, de forma hierárquica e disciplinar. Suas diretrizes nos transpassam de todas as formas possíveis, em especial, por intermédio dos meios de comunicação do mundo digital-virtual. O chamado marketing digital visa que a sociedade incorpore consumismo.


Colaboramos com o paciente na construção da própria singularidade – sua Personalidade Primária. É um processo complexo, dinâmico e permanente, que ajuda o paciente a buscar um caminho que precisa ser constantemente inventado e seguido. Note-se que há mapas que foram desenvolvidos sem os ideais consumistas.


Propomos perceber que o sistema quer nos fazer Objetos e Sujeitos do mercado, que nos estimula a adotar câmeras e redes sociais, e uma existência artificial. Seja na família, na escola, no trabalho ou na vida social, o sistema pressiona na direção de determinados papéis a serem desempenhados para que se desfrute de sua aceitação e reconhecimento.


Assim, discutimos uma maneira de romper com a Personalidade Secundária e reconhecer a nossa essência – self, si mesmo, alma-psiquê – vivendo de acordo com a própria Personalidade Primária.


Discutimos uma maneira de ter autonomia para inventar e seguir um caminho próprio. E trilhar o caminho de viver, a cada momento, de fato, com toda singularidade, criatividade, disposição, alegria e prazer que nos é possível.


Referências Bibliográficas


Entre psiquê e soma: introdução à psicologia biodinâmica

BOYESEN, Gerda; São Paulo: Summus, 1986.


Entre a Psiquê e o Soma: resumo do livro

Autora do resumo: Rosângela da Rosa; título da obra: Entre o psique e o soma: introdução à psicologia biodinâmica de Gerda Boyesen


Na psicanálise de Wilhelm Reich

ALBERTINI, Paulo; São Paulo: Zagodoni, 2016


O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional

WINNICOTT, D. W; Porto Alegre: Artmed, 1982


A ética é possível num mundo de consumidores?

BAUMAN, Zygmunt; Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007


Vida para consumo: a transformação de pessoas em mercadorias

 Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008