Agosto/2026 – Psicoterapia / Personalidade


Personalidade Secundária

O bloqueio da autoexpressão

sobre o trabalho de Cláudia Sendra

Este informe trata do trabalho de Cláudia Sendra sobre a construção da Personalidade Secundária.


Sendra fez reflexões sobre a forma como o modelo de desenvolvimento econômico global influencia as condições da vida contemporânea, fomentando uma adaptação artificial que leva à formação da Personalidade Secundária.


Este informe traz recortes, edições e adições do trabalho de Sendra para a conclusão da sua formação em Análise Biodinâmica, curso elaborado e ministrado pelo Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica.


Boa Leitura



O Bloqueio da Autoexpressão
e a Personalidade Secundária

Segundo Gerda Boyesen, criadora da Psicologia Biodinâmica, a Personalidade Secundária é formada em consequência de defesas que construímos para nos proteger de ameaças externas ou daquelas que foram internalizadas.


Sob o ponto de vista da Psicologia Biodinâmica, a estreita conexão capitalismo-tecnociência-comunicação pode nos levar a romper com necessidades básicas do nosso corpo, o que gera uma noção de obediência e submissão, que implica na diminuição da potência das pessoas.


As psicoterapias corporais, como a Bioenergética, a Biodinâmica e a Biossíntese visam estimular o paciente a investir no autoconhecimento, reconhecer e fazer valer sua potência, criatividade e singularidade.


O foco do trabalho da Sendra é a relação entre a teia capitalismo-tecnociência-comunicação e a edificação da Personalidade Secundária.


A construção da Personalidade Secundária é um processo que gera dessensibilização do viver saudável e está na origem de parte considerável dos casos que chegam à clínica psicológica. A psicoterapia pode levar a pessoa ao resgate de uma vida mais expressiva e ao reconhecimento de si, ao resgate de sua Personalidade Primária.



O corpo do palco:

a captura do corpo pela representação 

“As redes sociais são um palco.

Não compare o palco principal dos outros com os seus bastidores."


O fenômeno da supervalorização da aparência que se evidencia na contemporaneidade, nos traz a postagem que expõe não só a artificialidade de um determinado padrão de beleza, mas também a objetificação do corpo. A representação que se repete nas redes sociais é o Corpo Performático.


Corpos Performáticos são destituídos de aspectos somáticos e se reduzem à imagem pela imagem, numa montagem que conta, em grande parte das vezes, com efeitos visuais proporcionados pela tecnologia.


Colocados permanentemente em circulação pelos diferentes meios de comunicação, esses corpos são, ao mesmo tempo, ocos e ancoradouros de uma diversidade de sentidos. Na aparência produzida estão impressas crenças e valores, ideologias e possibilidades, de forma que as ideias passam a ser materializadas na estética corporal. A imagem é o discurso.


A mídia produz os sujeitos de que o mercado necessita, prontos para responder a seus apelos de consumo sem nenhum conflito, pois o consumo e, antecipando-se a ele, os efeitos fetichistas das mercadorias,

 é que estrutura subjetivamente o modo de estar no mundo dos sujeitos. (BUCCI, Eugênio e KEHL Maria Rita: 2004. p 66.)


Há tempos o instrumental tecnológico introduzido no nosso cotidiano é visto como possibilidade de superação dos limites físicos. Este instrumental, acessível pela Internet, esfumaçou as fronteiras de tempo e espaço, e as pessoas, antes aprisionadas no que seria uma precariedade corporal, podem se lançar numa rede planetária de fluxos de informações através da tela do computador, como uma interface entre o espaço newtoniano e o ciberespaço.


Sendra vê os mecanismos da informática como órgãos que estendem as potencialidades corporais humanas e, então, sugere a metáfora do Corpo Plugado, aquele que está conectado ao computador para entrada e saída de informações. Esta simbiose leva à ideia de transcendência da condição humana por meio da tecnociência.


A dualidade orgânico-inorgânico também é abalada pela biotecnologia que permite o aprimoramento de corpos através de diversos tipos de hibridização, tais como, transplantes e conexões realizados entre vivos e mortos, humanos e animais, e humanos e máquinas.


O sistema, onipresente, atua no sentido de moldar as pessoas de forma a se tornarem objetos de sua devoção. Agindo de acordo com os conjuntos normativos - que ora reprimem, ora se apresentam "paternalmente" apontando caminhos – as pessoas desenvolvem condutas e perspectivas de vida que as alienam de sua existência corporal.


Vale registrar que o mercado de trabalho pode ser visto como um espaço privilegiado de observação desse fenômeno de captura e ruptura do indivíduo que, para não ser um excluído, precisa se adequar a diretrizes que desconsideram a totalidade do seu corpo, o Corpo Somático, onde ocorrem as percepções sensoriais, as emoções e o agir espontâneo. O corpo, fonte de experiências e ancoradouro da vida, com suas potencialidades e limitações, passa a ser repositório de uma subjetividade cuidadosamente construída pelo marketing digital.


[Note-se que o Corpo Somático, que sente, é quem nos avisa que viver assim não é saudável – não nos traz o bem estar].

O Super Eu S.A.

a captura do corpo no mercado de trabalho

"Trabalhe enquanto os outros dormem",

"treine enquanto eles se divertem".


Uma das armadilhas verificadas na atualidade é a ideia de que o indivíduo deve não só criar uma identidade baseada no emprego que tem, mas também "amar seu trabalho", ter "identificação com os valores da empresa".


Assim, valores estrategicamente pensados para gerar o maior lucro financeiro possível para os acionistas devem ser introjetados e encarnados nos trabalhadores -  [perversamente chamados de colaboradores]. Por essa lógica, a pessoa deve se apresentar de bom grado para ter subtraída sua condição humana básica, sua singularidade, a fim de que tenha sua remuneração preservada.


As pressões ambientais às quais estão expostos os colaboradores podem levá-los a um distanciamento de sua Personalidade Primária, sua forma genuína de estar no mundo. O indivíduo se dissocia de sua própria natureza para forjar uma outra personalidade.


A busca por "ser alguém", "ser bem-sucedido" — conceitos comumente associados à aquisição de bens — pode impelir a um afastamento da atenção às próprias sensações e experiências. Quanto mais apartado de sua verdadeira natureza, mais a pessoa tem sua Personalidade Secundária fixada.



A construção da personalidade secundária

Gerda Boyesen foi quem desenvolveu os conceitos de Personalidade Primária e Personalidade Secundária. Esse último diz respeito à postura construída pelas pessoas como forma de defesa, e que se constitui a partir de um processo que se inicia na primeira infância. Para Boyesen, "um ser maltratado pela Personalidade Secundária" tem seus movimentos vitais bloqueados pelo temor de não ser aceito da forma como ele é. Dessa forma, seu direito ao prazer é impedido através de uma alteração do próprio organismo.


Boyesen nos mostra que quando nos construímos como indivíduos vivenciamos um embate entre o que é singular em nós e o que nos é imposto pelo processo de educação/formatação social, e que os processos de subjetivação, com todos os atravessamentos sociais, afetam nossa energia psíquica.


Quando o  nosso fluxo de energia é afetado, o corpo tensiona, trava, colapsa. Este processo se inicia na família, que espelha e reproduz o Estado, a disciplina e o controle. Esta pressão se estende posteriormente para a escola, para a figura do chefe e para outras instituições.


Os efeitos da oposição entre as necessidades do corpo e as exigências sociais são comumente testemunhados na clínica psicológica. São frequentes as pessoas que buscam ajuda por experienciar a vida como corpos-objeto, alijadas de processos somáticos, em vazio existencial, com sentimentos de inferioridade.


Assim como Wilheim Reich, Boyesen tem uma visão positiva do ser humano e destaca que cada um de nós, desfrutando de uma Personalidade Primária, tem propensão à vitalidade, ao prazer, e à defesa da vida em seus múltiplos aspectos. Aquele que vive sua Personalidade Primária tem alegria natural na vida, segurança, estabilidade e honestidade.


A maior parte das pessoas manifesta aspectos tanto da Personalidade Primária quanto da Personalidade Secundária. A prevalência de aspectos da Personalidade Secundária, em maior ou menor grau, determina o grau de alienação de si mesmo e sua maior ou menor capacidade de ter uma existência singular, de acordo com suas próprias necessidades.


A cronificação da Personalidade Secundária conduz a uma vida a serviço do já instituído pelo sistema mercadológico, uma vida de repetição, que pode se apresentar acompanhada de sintomas bastante desagradáveis.



Bioenergia e ciclo emocional 

A bioenergia, ou energia vital, influencia fisiologicamente o organismo humano, sendo seu fluxo passível de ser bloqueado por meio de tensões que, em algum momento, não foram adequadamente liberadas. A estase de bioenergia (ou encapsulamento de energia) é oriunda de emoções experimentadas ao longo da vida (em especial na infância), que não foram expressas de forma satisfatória para o organismo.


O ciclo emocional ou ciclo vaso-motor, refere-se à atividade circulatória do sangue envolvida em uma reação emocional ou num impulso. Esse ciclo é constituído de três fases: carga, descarga e relaxamento.


A fase ascendente desse ciclo - fase de carga - tem início a partir de um estímulo que gera uma emoção. As funções vegetativas do organismo se preparam para lidar com o mundo exterior, reagindo a essa emoção. Quando a situação passa, inicia-se a fase descendente do ciclo vaso-motor. Dessa forma, completa-se o ciclo e restaura-se o equilíbrio interno do organismo. Porém, se algum resíduo da perturbação organísmica é mantido, este causará alterações (estases de energia) que afetarão o bem estar e reduzirão a capacidade do indivíduo de se autorregular.


Quando a reação ao acontecimento é interrompida pela pessoa (para evitar conflito, por medo, etc), haverá interrupção do fluxo, de forma que ela manterá resíduos da tensão muscular, inibição da respiração e deformação da postura. Essas perturbações do funcionamento do organismo podem se tornar crônicas e imperceptíveis para a pessoa, que manterá esse material recalcado e incorporado de tal forma que não terá mais necessidade de utilizar energia psíquica para manter o impedimento de reagir ao acontecimento. A perturbação e o mal estar estarão incorporados. Esta é a cronificação da estase energética, denominada Couraça.


É o poder do indivíduo de reprimir ações instintivas que, por vezes, gera interações conflituosas entre psiquê e soma – alma e corpo.


O organismo sadio, com circulação energética plena, tem a capacidade de se autorregular, completando os ciclos emocionais e restabelecendo seu equilíbrio após situações de estresse.



O resgate da personalidade primária 

A energia vital sempre trabalha a favor do organismo, agindo no sentido de estimulá-lo a completar os ciclos emocionais e resgatar seu equilíbrio.


O problema da Personalidade Secundária é o bloqueio de sua energia e a desvitalização de sua potência para criar uma vida satisfatória e, sobretudo, autoral. Para isso é necessário que a pessoa possa estar atenta aos sinais da vida que pulsa livre por trás das couraças.


A psicoterapia corporal busca a expressão da Personalidade Primária através de diversas técnicas, incluindo massagens, toques, associação livre de ideias e outras formas de elaboração simbólica.


"O maior arrependimento que um ser humano pode ter é o de não ser aquilo que ele veio para ser nessa existência"
(Ana Cláudia Arantes — geriatra, especialista em cuidados paliativos)




E nas sessões de psicoterapia ...

Procuramos conscientizar os pacientes a perceberem que vivemos numa sociedade disciplinar, de controle e hierarquizada, num cenário em que as orientações mercadológicas são onipresentes e apontam no sentido de colocar todos numa mesma direção. São diretrizes afixadas de todas as formas possíveis, visando que sejam incorporadas pela sociedade.


Colaboramos com o paciente na construção da própria singularidade – sua Personalidade Primária. É um processo complexo, dinâmico, permanente e, sobretudo, pode ser doloroso. Significa buscar um caminho que, necessariamente, passa pelo incômodo, pelo mal estar. Um caminho que precisa ser inventado a cada passo, e por onde se segue sem mapa e sem destino certo. Muito mais fácil - porém enganoso - pode ser seguir rumos já traçados previamente, com placas de indicações por todos os lados para onde se olhe.


Propomos perceber que o sistema quer nos fazer Objetos e Sujeitos do mercado, nos estimulando a adotar em nosso cotidiano mecanismos como câmeras e redes sociais - que forjam existências artificiais, de acordo com o conjunto normativo vigente. Seja na família, na escola, no trabalho ou na vida social, o sistema pressiona na direção de determinados papéis a serem desempenhados para que se desfrute de aceitação e reconhecimento.


Assim, discutirmos uma maneira de romper com a Personalidade Secundária e reconhecer a nossa essência – self, si mesmo, alma-psiquê - no contato com a própria Personalidade Primária, na constituição de um corpo com autonomia para inventar e seguir, passo a passo, um caminho próprio, embora sempre se parta do já existente. Isto significa trilhar o caminho do tornar-se, a cada momento. Implica seguir o fluxo, o vento no rosto, os diferentes terrenos nas solas dos pés e também os percalços. Implica estar, de fato, na vida, com todas as suas possibilidades. 


Referências Bibliográficas


O bloqueio da auto-expressão: considerações sobre a construção da personalidade secundária na contemporaneidade

Revista Latino—Americana de Psicologia Corporal  -   DOI: 10.14295/rlapc v9i14.103


Na psicanálise de Wilhelm Reich

ALBERTINI, Paulo; São Paulo: Zagodoni, 2016


A ética é possível num mundo de consumidores?

BAUMAN, Zygmunt; Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007


Vida para consumo: a transformação de pessoas em mercadorias

 Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008


Entre psiquê e soma: introdução à psicologia biodinâmica

BOYESEN, Gerda; São Paulo: Summus, 1986.


O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional

WINNICOTT, D. W; porto Alegre: Artmed, 1982