Março/2025 – Psicoterapia / Bioenergética

Perceber o que o Corpo quer

A partir de exercícios bioenergéticos

Trilogia Corpo, por Claire

No decorrer do processo psicoterapêutico da paciente Claire (nome fictício), introduzimos Exercícios Corporais da Bioenergética. Ela atravessava uma crise conjugal e a sua grande capacidade intelectual não dava conta da questão. A proposta terapêutica foi dar mais importância e relevância às suas sensações, emoções e sentimentos, perceber o que o corpo diz. Era uma experiência psicoterapêutica nova para ela.

As sensações percebidas por Claire durante os exercícios corporais a estimularam a descrever o que sentiu.

Deu o nome de Trilogia do Corpo aos três textos que escreveu. E generosamente autorizou a sua publicação neste informe.

Como nos diz Lowen,

“Os exercícios bioenergéticos objetivam auxiliar o corpo a reconquistar sua liberdade natural, bem como sua espontaneidade, liberando não só o prazer, mas também uma alegre criatividade.

O prazer é uma experiência corporal. Não existe prazer puramente mental.

A capacidade de prazer é também a capacidade de autoexpressão criativa.”

Boa leitura!

 

Trilogia Corpo por Claire

Segue o texto em que Claire conta o que sentiu depois de cada uma das três sessões de exercícios corporais bioenergéticos.

Claire também acrescentou comentários que associam a Trilogia do Corpo ao processo psicoterapêutico bioenergético.

Trilogia 1 - Corpo

Sobre a sessão de 26/2/26
 

“A paz fez o mar da revolução” … e a consciência corporal devolveu ainda mais consciência, a consciência da opressão, mulheres mortas, estilhaçadas moralmente e concretamente. Que nossos corações nunca, nunca deixem de olhar para elas. A violência vai sendo normalizada, devagar se perde a confiança no outro, nas relações, em si mesma, e o absurdo começa a parecer rotina. Seguimos sustentando hipocrisias. A monogamia, muitas vezes, é vivida como um pacto mentiroso; desejar o outro é humano, o que nos cabe é autocontrole e responsabilidade pelos nossos atos. O que não pode é a irresponsabilidade que alimenta a exploração, mulheres submetidas à eterna busca do corpo perfeito, acorrentado, usado e descartado. O corpo é um lugar sagrado e é diariamente profanado. Enquanto faltarem mulheres no Estado, enquanto sua presença e sua voz não forem plenas nos espaços de poder, estaremos à mercê da pornografia como cultura de consumo e da ausência de punição para assassinos que, nesta semana, destruíram a vida de mulheres que queriam apenas se livrar do abuso. Senhoras, senhores, não normalizem o que não tem tamanho, o que não tem decência. Nosso corpo é livre. Nossa alma é livre.

Por meio da bioenergética, esta sessão marcou um deslocamento fundamental: sair do campo do pensamento e acessar o campo do sentir. A provocação de deixar de elaborar racionalmente e permitir que o corpo conduzisse a experiência abriu espaço para uma intensificação afetiva. A partir desse contato com o sentir, uma explosão de conteúdos emergiu, organizando-se no texto como expressão direta dessa consciência corporal ampliada.


Trilogia 2 - Corpo: desmembramento 1

Sobre a sessão dede 2/3/26

Fiquei nua perante mim mesma, como a lua. Dei de ombros às convenções e senti arrepios pelas mentiras engolidas apenas para sustentar um amor inventado. Desde Sartre e sua liberdade fundada na responsabilidade pelos próprios atos, acenei para o mistério íntegro da verdade que emerge de lugares recônditos. Suspirei baixo para arrumar a bagunça que fez sombra ao meu coração. E, agindo com coragem, abracei a mim mesma como nunca antes. Ali surgiu o amor próprio, talvez o mais honesto de todos os amores.

Nas sessões seguintes, começo a perceber, através da bioenergética, um movimento de retorno a mim mesma. Em uma das sessões, sou convidada a me colocar diante do espelho por alguns minutos. Sustento o olhar e passo a me observar. Nesse momento, algo novo acontece: apesar da minha idade e de tudo o que vivi e venho vivendo, não encontro em mim nada tão desagradável quanto imaginava. Essa experiência me desloca — começo a me ver com mais presença, menos julgamento, como observadora de mim mesma. Esse contato inaugura em mim um início de acolhimento e um caminho possível de amor próprio.


Ao aprofundar esse processo, reconheço em mim uma travessia. A imagem da menina que atravessa o rio passa a fazer sentido como parte da minha própria história. Ao me observar, percebo que meu corpo guarda memória, continuidade e verdade. A bioenergética me permite integrar o que fui com o que sou, numa experiência mais inteira.


Trilogia 3 - Corpo: desmembramento 2

Trilogia 3 - Corpo: desmembramento 2

Sobre a sessão de 9/3/26


Para ouvir Debussy - Clair de Lune <clique aqui> .

https://www.youtube.com/watch?v=WNcsUNKlAKw


E é profundamente libertador esse sentimento de poder olhar para o próprio corpo sem justificativas racionais. A quem eu defendia quando precisava sustentar mentiras? A mim? Ao outro? Como em Clair de Lune, volto ao início: aquela menina de olhos arregalados cruzando o grande rio para viver amores interrompidos. A menina torna-se mulher, sofrendo, sustentando o que não tinha forças para sustentar. O sol do meio-dia incendiando meus cabelos. Agora, envelhecendo, quero me tornar verdade. A verdade de todos os meus atos. E agora quem incendeia é o meu próprio coração, apaixonado por si mesmo. Sob a luz de Clair de Lune, volto a ser menina.

Ao trazer a imagem de Sherlock Holmes [*], passo a me reconhecer como observadora de mim mesma. Percebo que a investigação que antes direcionava ao outro agora se volta para dentro. Começo a vasculhar meus próprios processos com mais atenção, honestidade e ética. Esse movimento amplia minha consciência e marca um momento importante de passagem: de uma observação externa para uma investigação interna mais profunda.

Toda investigação exige honestidade, reconhecimento e ética. A lupa que tantas vezes utilizamos para investigar o outro precisa, em algum momento, voltar-se também para mim.

[*] Ao se olhar no espelho Claire percebeu muitas sensações e declarou que se sentia “investigativa”. Ao final da sessão, propus que refletisse sobre a pergunta que me ocorreu naquele momento: 
“Como Sherlock Holmes investigaria um crime cometido por ele mesmo?”

 

E nas sessões de psicoterapia ...

“A bioenergética é uma maneira de compreender a personalidade em função do corpo e de seus processos energéticos. Combina o trabalho corporal com o da mente para ajudar as pessoas a compreenderem seus problemas emocionais e concretizarem o mais que puderem seu potencial para o prazer e a alegria de viver.”

“O paciente pode ler e responder aos sinais do corpo através de exercícios de conscientização e revitalização, liberando a energia de sentimentos reprimidos. A alegria emerge então como essência do nosso verdadeiro ser, gerando um elevado grau de espiritualidade e a capacidade de lidar com o cotidiano. É a alegria como entrega ao corpo e à vida.”

Dois conceitos chave da bioenergética estão sempre presentes nos exercicíos: a Respiração abdominal profunda, contínua e lenta e o grounding (enraizamento).

A boa Respiração é essencial para uma saúde vibrante. Através da respiração, conseguimos o oxigênio para manter aceso o fogo do nosso metabolismo e isto nos assegura a energia de que precisamos.

Estar Grounded enraizado é estar com os pés no chão. Significa que sabemos onde estamos e quem somos. Num sentido mais amplo, representa o contato com as realidades básicas da nossa existência. É estarmos firmemente plantados na terra, identificados com nosso corpo e sexualidade, e orientados para o prazer.

Os trabalhos corporais bioenergéticos possibilitam a integração das sensações corporais aos processos mentais. Mente e corpo funcionam sistemicamente. Estimulamos nossos pacientes a questionar a ideia de que podemos resolver nossos problemas apenas racionalmente.

Os exercícios bioenergéticos trouxeram à Claire a oportunidade de compreender que não existe mente sem corpo. E que o corpo reage a tudo que acontece, enquanto a mente comanda “apenas” as reações conscientes, aquelas ações que escolhemos fazer, com uma determinada intenção.