Maio/2026 – Psicoterapia / Depressão, TDAH, TPL e Burnout


Sociedade do Cansaço

Reflexão sobre o livro de Byung-Chul Han


Época Neuronal: a paisagem patológica do começo do século XXI

Introdução


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A violência neuronal

Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL), ou a síndrome de burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI, época neuronal, deixando para trás a perspectiva bacteriológica ou viral.


O século passado foi uma época imunológica, que estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo ou próprio e estranho. A ação imunológica definida como ataque e defesa é francamente militar.

O objeto da defesa imunológica é a estranheza como tal, mesmo que o estranho não tenha nenhuma intenção hostil ou represente nenhum perigo. O estranho deve ser eliminado por sua alteridade.


Hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, que não faz adoecer, não provoca uma reação imunológica. Falta à diferença a estranheza que provocaria uma violenta reação imunológica.


A estranheza se neutraliza numa fórmula de consumo. O estranho cede lugar ao exótico. O turista viaja para visitá-lo. O turista (ou o consumidor) já não é mais um sujeito imunológico.


O imunologicamente outro é o negativo, que penetra no próprio e procura negá-lo. Nessa negatividade do outro o próprio sucumbe, quando não consegue, de seu lado, negar àquele.


... sobre a estratégia vacinal ... Introduzindo-se no próprio apenas fragmentos do outro para provocar a imunorreação, a negação da negação ocorre sem perigo de morte, pois a defesa imunológica não é confrontada com o outro, ele mesmo. Deliberadamente, faz-se um pouco de autoviolência para proteger-se de uma violência ainda maior.


A violência não provém apenas da negatividade, mas também da positividade, não apenas do outro ou do estranho, mas também do igual.


Os estados patológicos devidos ao exagero de positividade são adoecimentos neuronais. “Quem vive do igual, também perece pelo igual” (Baudrillard).


A violência da positividade que resulta da superprodução, do superdesempenho ou da supercomunicação, não é viral.


A violência da positividade não é privativa, mas saturante; não excludente, mas exaustiva. Por isso é inacessível a uma percepção direta.

Tanto a depressão quanto o TDAH ou a Síndrome do Burnout apontam para um excesso de positividade.



Além da sociedade disciplinar

A sociedade disciplinar de Foucault, feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, não é mais a sociedade de hoje. Em seu lugar, há muito tempo, entrou uma outra sociedade, a saber, uma sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. É a sociedade do desempenho.


Os sujeitos de hoje não são mais sujeitos da obediência, mas sujeitos de desempenho e produção, empresários de si mesmos.

Os muros das instituições disciplinares, que delimitam os espaços entre o normal e o anormal, se tornaram arcaicos.


A sociedade disciplinar gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho produz depressivos e fracassados.

A positividade do poder é bem mais eficiente que a negatividade do dever. Assim o inconsciente social do dever troca de registro para o registro do poder. O poder, porém, não cancela o dever. O sujeito de desempenho continua disciplinado.


O que nos torna depressivos seria o imperativo de obedecer apenas a nós mesmos. A depressão é a expressão patológica do fracasso do homem pós-moderno em ser ele mesmo. À depressão pertence também a carência de vínculos, característica para a crescente fragmentação e atomização do social. O que causa a depressão é a pressão de desempenho. A síndrome de burnout não expressa o si-mesmo esgotado, mas antes a alma consumida. A lamúria do indivíduo depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível.


O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração, que é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorado.



O tédio profundo

O excesso de positividade se manifesta também como excesso de estímulos, informações e impulsos. Modifica radicalmente a estrutura e economia da atenção. Com isso fragmenta e destrói a atenção. Também a crescente sobrecarga de trabalho torna necessária uma técnica específica relacionada ao tempo e à atenção, que tem efeitos novamente na estrutura da atenção. A técnica temporal e de atenção multitarefa não representa nenhum progresso civilizatório, trata-se de um retrocesso.


A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção indispensável para sobreviver à vida selvagem. Um animal ocupado no exercício da mastigação de sua comida tem de ocupar-se ao mesmo tempo também com outras atividades. Deve cuidar para que, ao comer, ele próprio não acabe comido.


A multitarefa impede o aprofundamento contemplativo. As mais recentes evoluções sociais e a mudança de estrutura da atenção aproximam cada vez mais a sociedade humana da vida selvagem. A preocupação pelo bem-viver cede lugar cada vez mais à preocupação por sobreviver.


Os desempenhos culturais da humanidade devem-se a uma atenção profunda e contemplativa. Essa atenção profunda é cada vez mais deslocada por uma forma de atenção bem distinta, a hiper atenção. A hiper atenção é uma atenção dispersa que se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. Assim, não há espaço para o tédio, em especial para o tédio profundo que é necessário para um processo criativo.


Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual. Pura inquietação não gera nada de novo, reproduz e acelera o já existente.


Quem se entedia no andar e não tolera estar entediado ficará andando a esmo inquieto, irá se debater ou afundará nesta ou naquela atividade. Mas quem é tolerante com o tédio, depois de um tempo irá reconhecer que possivelmente é o próprio andar que o entedia. Assim, ele será impulsionado a procurar um movimento novo. O correr ou o cavalgar não é um modo de andar novo. É um andar acelerado. A dança, por exemplo, ou o balançar-se, representa um movimento totalmente distinto. Só o homem pode dançar.


Possivelmente no andar é tomado por um profundo tédio, de tal modo que por essa crise o tédio transponha o passo do correr para o passo da dança. Comparada com o andar linear, reto, a dança, com seus movimentos revoluteantes, é um luxo que foge totalmente do princípio do desempenho.

Vita activa

Hannah Arendt, em seu escrito Vita Activa, procura reabilitar a vida ativa contra o primado tradicional da vida contemplativa. Em sua opinião, a vita activa foi degradada de forma injusta na tradição à mera agitação. No final do seu trabalho ela não consegue ver que a perda da capacidade contemplativa é corresponsável pela histeria e nervosismo da sociedade ativa moderna.

A perda moderna da fé, que não diz respeito apenas a Deus e ao além, mas à própria realidade, torna a vida humana radicalmente transitória. Jamais foi tão transitória como hoje. Não apenas a vida humana, mas igualmente o mundo como tal. Nada promete duração e subsistência. Frente a essa falta do Ser surgem nervosismos e inquietações.

Segundo Nietzche, após a morte de Deus a saúde se erige como uma deusa. Se houvesse um horizonte de sentido que se eleva acima da vida desnuda, a saúde não poderia ser absolutizada nessas proporções.

O homo sacer é originalmente alguém que foi excluído da sociedade em virtude de um delito. Ele pode ser morto, sem que o autor seja penalizado por isso. Segundo Agamben, o homo sacer representa uma vida absolutamente passível de ser morta. São representantes do homines sacri os judeus nos campos de concentração, os prisioneiros de Guantânamo, os que não têm documentos, os que pedem asilo e aguardam em um local neutro para sua deportação ou também os doentes em estágio terminal das UTIs.

Se a sociedade do desempenho reduz todos nós como vida desnuda, então não apenas as pessoas em situações excepcionais, portanto não apenas os excluídos, mas todos nós indistintamente, somos homines sacri.

Frente à vida desnuda, radicalmente transitória, reagimos com hiperatividade, com a histeria do trabalho e da produção. Também a aceleração de hoje tem muito a ver com a carência do ser.

A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são uma sociedade livre. Elas geram novas coerções, onde o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nesse campo de trabalho somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Acabamos explorando a nós mesmos. Assim a exploração é possível mesmo sem senhorio. Com isso, as pessoas que sofrem com Depressão, Transtorno de Personalidade Limítrofe e Síndrome de Burnout desenvolvem sintomas iguais ao que apresentavam os prisioneiros de guerra nos campos de concentração.

 

 

5 – Pedagoria do ver

A vida contemplativa pressupõe uma pedagogia específica do ver.

Nietzche formula três tarefas, em vista das quais a gente precisa de educadores: (1) aprender a ler, (2) aprender a pensar e (3) aprender a falar e a escrever. Aprender a ver significa habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-se-de-si, isto é, capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento.

Temos que aprender a “não reagir imediatamente a um estímulo, mas tomar o controle dos instintos inibitórios, limitativos.”

A vida contemplativa não é um abrir-se passivo a tudo que advém e acontece. Ao contrário ela oferece resistência aos estímulos opressivos, intrusivos. Em vez de expor o olhar aos impulsos exteriores, ela os dirige soberanamente. É mais ativa que qualquer hiperatividade, que é precisamente um sintoma de esgotamento espiritual. Sem os instintos limitativos, o agir se deteriora numa reação e ab-reação inquieta e hiperativa.

A atividade que segue a estupidez da mecânica é pobre em interrupções. A máquina não pode fazer pausas. Apesar de todo o seu desempenho computacional, o computador é burro, na medida em que lhe falta a capacidade para hesitar.

Possivelmente o computador conte de maneira mais rápida que o cérebro humano, e sem repulsa acolhe uma imensidão de dados, porque está livre de toda e qualquer alteridade. É uma máquina positiva. Por sua autorregulação autista, gera desempenhos que só seria capaz de realizar uma máquina computacional. No empuxo da positivação geral do mundo, tanto o homem quanto a sociedade se transformam numa máquina de desempenho autista. O esforço exagerado por maximizar o desempenho afasta a negatividade, porque esta atrasa o processo de aceleração.

Se possuíssemos apenas a potência de fazer algo e não tivéssemos a potência de “não fazer”, incorreríamos numa hiperatividade fatal.

No empuxo da aceleração geral e da hiperatividade desaprendemos também a ira.

A ira coloca definitivamente em questão o presente. Ela pressupõe uma pausa interruptora no presente. É nisso que ela se distingue da irritação. A dispersão geral que marca a sociedade de hoje não permite que surja a ênfase e a energia da ira. A ira é uma capacidade que está em condições de interromper um estado e fazer com que se inicie um novo estado. Hoje, cada vez mais ela cede lugar à irritação ou ao enervar-se, que não podem produzir nenhuma mudança decisiva. Assim irritamo-nos também por causa do inevitável.

A irritação está para a ira como o medo está para a angústia. Contrariamente ao medo que se refere a um objeto determinado, a angústia se refere ao ser como tal. Ela atinge e abala toda a existência.

A hiperatividade é paradoxalmente uma forma extremamente passiva de fazer, que não admite mais nenhuma ação livre. Radica-se numa absolutização unilateral da potência positiva.

 



7 – Sociedade do Cansaço

O cansaço tem um coração amplo, por Maurice Blanchot

A sociedade do cansaço, enquanto sociedade ativa, desdobra-se lentamente numa sociedade do doping. A expressão negativa “doping cerebral” foi substituída por “melhoramento cognitivo. O doping possibilita de certo modo um desempenho sem desempenho. Cientistas sérios argumentam que seria irresponsável não utilizar tais substâncias, cuja utilização traria benefícios à sociedade.

Só a proibição – o antidoping – impede o desenvolvimento de substâncias através das quais não só o corpo, mas o homem como um todo se transformam numa máquina de desempenho, que pode funcionar livre de perturbações e maximizar seu desempenho.

O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma.

O cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando. A um cansaço calado, cego e dividido, Handke contrapõe um cansaço falaz, vidente, reconciliador. O cansaço-eu enquanto cansaço solitário, é um cansaço sem mundo, destruidor do mundo. Por outro lado, ele “abre” o eu, torna-o “permeável” para o mundo. Restabelece a “dualidade” que foi totalmente destruída no cansaço solitário. A gente vê e é vista. A gente toca e é tocada. Um cansaço como “tornar-se acessível”, sim, é o único que possibilita um demorar-se, uma estadia. O “menos no eu” se expressa como um “mais para o mundo”.

O cansaço, enquanto um “mais do menos eu” afrouxa as presilhas do eu. Para Handke, esse “cansaço fundamental”, o cansaço do “tornar-se acessível”, reúne todas aquelas formas de existência e de convivência que desaparecem totalmente no empuxo da absolutização do ser ativo. Esse “cansaço fundamental” é tudo menos um estado de esgotamento no qual estaríamos incapacitados de fazer alguma coisa. Ele inspira. Ele faz surgir o espírito.

O cansaço habilita o homem para uma serenidade e abandono especial, para um “não fazer” sereno. Permite o acesso a uma atenção totalmente distinta, acesso àquelas formas longas e lentas que escapam à hiper atenção curta e rápida.

O cansaço de esgotamento é um cansaço da potência positiva. Ele nos incapacita de fazer qualquer coisa. O cansaço que inspira é um cansaço da potência negativa, do “não para”. Trata-se de um tempo intermédio. Depois de terminar sua criação, Deus chamou ao sétimo dia de sagrado. Sagrado, portanto, não é o dia do “para isso”, mas o dia do “não para”, um dia no qual seria possível o uso do inútil. É o dia do cansaço. O tempo intermediário é um tempo sem trabalho, um tempo lúdico. Para Handke este tempo intermediário é um tempo de paz.

O “cansaço fundamental” suspende uma individualização egológica, fundando uma comunidade que desperta um compasso especial, cansaço que leva a um mútuo acordo, a uma proximidade, a uma vizinhança sem qualquer vínculo familiar ou funcional. O cansaço dá o compasso ao indivíduo disperso, inspira o “não fazer” que se contrapõe à sociedade ativa. Se fosse sinônimo de sociedade futura, a sociedade por vir poderia chamar-se então Sociedade do Cansaço.


E nas sessões de psicoterapia ...

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Referência bibliográfica


Sociedade do Cansaço

Han, Byung-Chul; Sociedade do Cansaço; tradução de Enio Paulo Giachini, 3ª. Ed.; Petrópolis, RJ : Vozes, 2024.

 

Chatbot - Robô de Conversa

Fonte: Wikepedia, acessado em 22 de abril de 2026